Nos últimos meses, a série
"13 Reasons Why" da Netflix e um suposto jogo on line
"Baleia Azul" trouxeram à tona o assunto do suicídio, em especial, de adolescentes. Como não poderia deixar de ser, isto foi gerador de não só discussões sobre o tema, mas de angústia entre jovens, seus pais e profissionais que trabalham com este público (educadores, psicólogos e médicos, por exemplo).
Além disso, toda esta discussão abriu brecha para muita desinformação e posicionamentos não refletidos e radicais. Enquanto é possível olhar para este fenômeno de diversos ângulos, é
preciso tomar cuidado com as respostas rápidas e apelativas que surgem numa hora como esta.
Eu não pretendo aqui falar do tema diretamente,, mas compartilhar referências que encontrei, li e que julguei confiáveis e assim espero que sirvam de base para que este assunto continue sendo discutido, mas que seja tratado com o necessário cuidado:
(1) http://www.jornaldocampus.usp.br/index.php/2017/04/serie-13-reasons-why-foge-a-cartilha-da-oms/
Neste artigo, é feito uma crítica à forma como a série aborda o suicídio (atribuindo culpados e mostrando em detalhes como a personagem principal comete o suicídio). Esta crítica é evocada na fala do psiquiatra da Hospital das Clínicas da USP, professor Dr Teng Chei Tung:
“Nunca se deve ensinar como fazer um procedimento suicida de forma eficaz. Neste caso, a série 13 Reasons Why pecou por tentar ser fiel ao livro e mostrar com detalhes o ato. Isso é totalmente inadequado”.
O artigo ainda destaca dois erros fundamentais que a série comete: culpar terceiros e colocar o cuidado com a saúde mental em segundo plano.
"Ao apontar culpados, a série comete mais um erro de acordo com a OMS. Tirar a própria vida é resultado de uma soma de fatores complexos e diferentes para cada indivíduo."
(...)
"Colocar o cuidado com saúde mental em segundo plano na narrativa não segue outra diretriz do Manual: a necessidade de destacar alternativas ao suicídio. Os adolescentes, em geral, têm dificuldade em se comunicar com adultos, principalmente com figuras de autoridade, como pais e professores. Ao mostrar a ineficácia do pedido de ajuda feito por Hannah ao conselheiro da escola sem apresentar outro caminho, a série dá a entender que naquela sequência de fatos o suicídio era o desfecho lógico, como aponta Paula Mesquita, estudante de comunicação: “A mensagem que é passada é que não existe ajuda possível”.
Finalmente, o artigo encerra com a reflexão:
"Uma consequência positiva disso tudo, interligada a série, mas não limitada a ela, foi a conscientização acerca do suicídio e do bullying. Paula Mesquita, Sílvio Anaz, Francisco Lotufo e Teng Chei Tung concordam que 13 Reasons Why fomentou o debate acerca desses assuntos. No entanto, Tung aponta que a abordagem da prevenção no Brasil ainda é restrita, devido à falta de estrutura para atender uma demanda caracterizada pelo médico como “desconhecida e silenciosa”. “Os serviços de saúde não tem programas específicos para lidar com pacientes suicidas”. Todo cuidado ao abordar o suicídio, portanto, é pouco. Desencadear pedidos por ajuda em um país com pouca estrutura para atender a demanda pode gerar consequências graves, como o disparo de ‘gatilhos’ em indivíduos já sensibilizados por transtornos mentais."
(2) http://www.plenamente.com.br/artigo/225/13-reason-why-que-especialistas-saude.php#.WRyK9ev1C1t
Neste link é feita a tradução da recomendação da organização americana SAVE (Suicide Awareness Voices of Education) de forma precisa e direta fazendo uma relação direta com pontos importantes da série. Há também links para os sites da organização e para o site do CVV no Brasil.
(3) http://jornal.usp.br/artigos/suicidios-tantos-porques/
Neste artigo, de forma direta e simples, a professora associada do Instituto de Psicologia da USP e coordenadora do Laboratório de Estudos sobre a Morte, Maria Julia Kovacs, alerta para o fato que (também presente no documento anterior):
"O bullying, a violência, o isolamento, a não consideração de seus anseios podem ser fatores que precipitaram o ato suicida, mas a atribuição de causalidade nos leva a uma avaliação simplista e por isso incorreta. O suicídio é um caminho de ação possível, mas não o único. Inúmeras outras respostas poderiam ser dadas como observamos nos colegas e amigos de Hannah, que também tiveram seus conflitos e sofrimento e responderam com conversas, briga, aceitação, afastamento, atos agressivos, entre outras tantas possibilidades. O suicídio envolve uma longa história que tem seu início nas primeiras ideações, pensamento recorrente, planejamento e tentativa, finalizada com o ato suicida."
E faz um convite para que a reflexão sobre o tema continue:
"Acreditamos que a melhor forma de compreender e prevenir suicídios é abrir espaço para conversas e reflexão e não simplesmente interditar o tema. Há uma falsa compreensão de que falar sobre suicídio pode incentivar o suicídio. Pelo contrário, ignorar ou não falar sobre os sinais de risco referidos acima leva ao risco de que o suicídio seja a única saída possível. É fundamental nesses casos encaminhar os jovens para atendimento psiquiátrico e psicológico e para ONGs como o Centro de Valorização da Vida."
(4) http://www.npr.org/sections/ed/2017/05/05/526871398/facts-about-teens-suicide-and-13-reasons-why
Este artigo, em inglês, faz um alerta para que as escolas não banalizem os pedidos de socorro de seus jovens e lidem diretamente com casos de bullying e outros tipos de discriminação que podem ser gatilhos, embora não se deve achar culpados, mas cuidar daqueles que precisam. O foco é no que as escolas podem fazer para melhorar o "clima na escola'. Alguns trechos:
"some schools have two-thirds of their students who have reported thinking about suicide. That means school-level interventions concentrated in high-risk schools can do a lot"
"the images of self-harm in a show like 13 Reasons Why could be contagious, but only for some teens. "It's not just that any random kid would see it and do it," he says. Instead, for young people who already have suicidal ideation, "if they already have those beliefs," that could push them over the top."
"His research also underlines the need for schools to energetically combat problems like bullying, gender-based or homophobic harassment and gang activity. "If someone is victimized, even something like pushing and shoving, they are more likely to have suicidal ideation," says Avi Astor. That has been proven to translate into suicide attempts. So improving school climate can actually save lives."
Boa leitura e boa reflexão.